Tinha como hábito não ser. Sua mãe, desinformada que era, fazia sempre questão de lembrá-la de sua desexistência. Nascera na hora errada, em um momento ruim. Gravidez sofrida, parto sofrido, etc, etc. Só trouxe a dor.
Criança birrenta e teimosa. Era esse o único modo de chamar a atenção, com desobediências. Seu contato físico se dava apenas através de palmadas, quando não eram chineladas. De vez em quando a mãe dizia que iria mandá-la a um orfanato, caso não obedecesse. Claro que a menina morria de medo, mas acabava ficando quietinha... Procurava alguma coisa para fazer e encontrava um lugar qualquer, um cantinho. Não havia aprendido a pensar, então por isso não pensava. A única coisa que sabia é que não era ninguém. Só tinha nome porque precisava de um e não tinha nenhuma perspectiva de futuro. Moravam só as duas em uma casa. Haviam alguns poucos vizinhos e todo o lugar era repleto de montanhas. Vários pássaros faziam ninhos no telhado da casa e nas árvores ao redor. A menina às vezes ia perto de um penhasco, sentava-se e observava os pássaros entre as nuvens. Por algum motivo aquilo lhe dava uma sensação deliciosa. A idéia de poder voar e sair por aí em meio as árvores, sentindo o gosto das nuvens e do vento era confortável e libertadora. Como todo mundo, sonhava com o que não era, com o impossível. Certo dia, depois de receber as palmadas cotidianas, correu para o penhasco observar o maravilhoso. Não se importava muito com os pássaros que apareciam... amava todos. Os ventos daquele dia, porém, não trouxeram os passarinhos de sempre. Depois de abrir os olhos e sentir os ventos em seus cabelos curtos e mal tratados, avistou um pássaro grande. Não só grande, mas grandioso. Não sabia seu nome, porque não sabia o nome de nenhum. Mas esse era com certeza o mais lindo de todos. Tinha um bico grande, que pendia para baixo. As asas, também grandes, pareciam leques cuidadosamente pintados de preto e branco. A barriga e as pernas eram brancas e o rosto parecia ter sido pintado com tons cinzas, o que destacava os olhos fundos e negros. Ela estava hipnotizada por aquela ave tão fantástica. Balançava sua cabeça acompanhando seu vôo e corria entre as árvores na tentativa de não perdê-la. Por um momento desejou ser a ave. A menina que não era nada sentia o que nunca havia sentido: a vontade de ser. Voltou para a casa e passou a tarde toda correndo pelo quintal com os abraços abertos, imaginando ser tão incrível quanto o pássaro. Correr pelo quintal dessa forma parecia ser o que ela fazia de melhor na vida. Ela era um pássaro. Sentia-se realizada e completa, como se não precisasse de mais nada. Esses sentimentos tiravam de sua cabeça as coisas todas que sua mãe colocara desde criancinha. Fugia da voz dizendo que ela não seria nada, que iria para um orfanato, que iria sofrer na vida e que fazia tudo errado. Ali era só ela. Ela e o mais íntimo sentimento de alegria, a felicidade mais completa. Coisas que ela nunca havia sentido se quer uma vez na vida.
A Ave grandiosa estava sempre por ali nos últimos dias... toda manhã aparecia para fazer os olhos da menina brilharem. Planava por entre as montanhas e esbanjava harmonia no seu vôo hipnotizador. A menina estava decidida. Queria ser uma ave.
Ela não sabia se era possível, se alguém já havia feito isso ou qualquer coisa do tipo. Também nem queria saber. A vida toda ninguém lhe respondeu nada e por isso ela nem se dava o trabalho de perguntar. Só fazia. E estava feito. Na manhã de domingo fez o café mais cedo e mais doce. Procurou cola e encheu seus braços e pernas de folhas. Eram essas suas penas. As mais sinceras penas. Com a tinta que usava na escola pintou seu rosto de cinza, sua barriga de branco e as costas de preto, igualzinho a ave. Se escondeu um pouco enquanto a mãe gritava qualquer coisa. Lembrou-se que agora iria viver em cima das montanhas e se esforçou para escrever um bilhete (de letra bonita) explicando tudo para a mãe. Quando a mãe voltou para dentro de casa, a menina estava pronta.
Correu mais um pouco ao redor das árvores e sentiu-se mais longe do chão. Sabia muito bem o que estava fazendo. A ave, cuidando do céu, parecia estar esperando a menina nas alturas. Ela sabia disso. Então, com o olhar firme e seguro como de um animal, balançou os braços de maneira harmoniosa e correu. Quando chegou à beira do penhasco saltou de olhos e sorrisos abertos. Sentiu o vento com que sonhava batendo em seus cabelos enquanto caia e por estar tão feliz e quase sem consciência não se dava conta que estava caindo. Via a ave no seu vôo sempre igual e sentiu-se mais do que nunca como ela...
A mãe saiu correndo de dentro da casa, com um desespero que nunca havia sentido. A sensação era de ter perdido um pedaço do corpo, da alma. Talvez tratasse a filha assim não por que a odiasse, mas porque a amasse como ama a si mesma.
Viu as folhas e tintas espalhadas pelo chão até o penhasco e entendeu o que havia acontecido. Sentiu-se imensamente triste por não ter amado mais a menina e tomava o café da manhã como quem abraça um filho que volta da guerra. Não queria que o café doce, tão doce, terminasse nunca. Era o restinho da filha que se ia... Em cima da mesa notou um pedaço de papel. Reconheceu a letrinha e limpou as lágrimas dos olhos na tentativa de lê-lo. Com a letra caprichosa, estava escrito: “Mãe, não se preocupe, eu volto para te visitar. Viu só? No final das contas eu era mesmo alguma coisa. Sei que está orgulhosa de mim. Só fiz isso porque aprendi (sozinha) a voar.”
Sentada perto do penhasco a mãe avistava a ave sobrevoando as árvores de sempre. Agora, porém, eram duas. Por um momento a mãe sentiu profundamente a beleza delas e o pedaço que havia se ido pareceu um pouco mais regenerado. Como duas amigas voaram para longe. Não voltariam mais.

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